Neurocientista no Salão

Folha de SP - 15 de fevereiro de 2007

Dança de salão

Ser colunista é ótimo por várias razões, mas de uma eu gosto em particular: ter de escrever quinzenalmente é a desculpa perfeita para embarcar em investigações paralelas aos assuntos habituais do laboratório. E assim eu me vi fazendo aulas de dança de salão. Neurocientificamente, claro.

Aprender a dançar é um prato feito para uma neurocientista de plantão. Tudo começa com o planejamento. É preciso encontrar o local, escolher uma turma adequada ou um professor particular e coordenar dia e hora com todos os afazeres habituais, o que dá trabalho ao córtex pré-frontal. Marcado o dia, vem o prazer da expectativa, a antecipação da recompensa de rodopiar com a música.

E então as aulas. Os professores sabem há tempos que o cérebro aprende novos programas motores aos poucos, então ensinam os passos em etapas. O córtex motor elabora a nova seqüência de movimentos, até então nunca usada, ordena sua execução e começa a ajustá-la, de acordo com os erros e os acertos, com a ajuda dos núcleos da base. Depois que cada seqüência é polida, é hora de coordená-las em um programa motor completo que cuida da execução fluida de combinações de "sombreros", "coca-colas" e "passeias" no ritmo da música, de preferência, se seu cerebelo ajudar. E haja cerebelo para manter o prumo com tantos rodopios.

Até aí vai. Mas cantarolar a música e dançar ao mesmo tempo leva um tempo. Enquanto os programas motores recém-adquiridos não se tornam automáticos e liberam o córtex para outros assuntos, preciso de todos os neurônios corticais disponíveis para supervisionar meus passos. O bom é que, como preciso concentrar esforços sobre minhas pernas, os problemas do mundo lá fora ficam lá fora. Com mais treino e uma música rápida demais para meu córtex dar conta, descubro um dia que meus núcleos da base já sabem encadear sozinhos todos os programas motores necessários. Meu cérebro aprendeu a dançar salsa!

Dança de salão é tudo de bom. As academias são lugares alegres, cheios de jovens e idosos, todos dispostos a aprender coisas novas -e ainda oferecem um exercício completo para o cérebro. Dançando, é possível suar e manter saudável a resposta do cérebro ao estresse, treinar a memória, aprendendo passos e nomes novos, exercitar suas habilidades sociais, interagindo com pessoas desconhecidas, e ainda ativar o sistema de recompensa, o que garante boas horas de prazer e diversão. E depois... é hora do baile!

SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora de "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (ed. Vieira & Lent) e de "O Cérebro em Transformação" (ed. Objetiva) -suzanahh@folhasp.com.br